quinta-feira, março 30, 2006

Directivas de acessibilidade para idosos - desenvolvimento de uma checklist para avaliação (versão2.0)

A checklist para a avaliação de acessibilidade web para idosos, criada por Márcia Barros de Sales e Walter de Abreu Cybis, está organizada de acordo com os critérios de ergonomia de Scapin & Bastien e dividida em 10 subconjuntos de checklists:

- Compatibilidade;
- Flexibilidade (relaciona-se com meios alternativos de aceder ao conteúdo e de interagir com o sistema);
- Legibilidade;
- Controlo do utilizador (relativo a alterações automáticas do conteúdo da página);
- Agrupamento/ distinção por localização (diferenciação de diferentes tipos de conteúdo);
- Significados dos códigos e denominações;
- Presteza (relaciona-se com mecanismos de ajuda e de orientação na navegação no site);
- Acções mínimas;
- Consistência;
- Densidade informacional.

Relacionadas com cada um destes critérios de ergonomia, foram então agrupadas diversas questões que compõem a checklist. Esta foi elaborada tendo por base vários princípios de usabilidade e acessibilidade, nomeadamente os apresentados pela W3C e também a partir dos resultados obtidos na observação da oficina de idosos e nos problemas encontrados por estes utilizadores enquanto navegavam na Internet.

No entanto, parece-me que a oficina de idosos podia ter sido pensada de uma forma diferente, o que poderia ter levado a conclusões necessariamente distintas. Tal como foi referido no final do último post, os idosos escolhidos para participar na oficina constituíam um grupo muito homogéneo, o que poderá ter comprometido os resultados, que se esperava que fossem representativos e que pudessem ilustrar o universo dos idosos. Se os idosos escolhidos eram todos reformados do Banco do Brasil e viviam na mesma cidade, não se estaria, então, a comprometer o significado dos resultados?
Possivelmente, os resultados seriam diferentes se os 10 idosos seleccionados tivessem proveniências diferentes, a nível geográfico e, especialmente, a nível cultural, educacional e económico. Uma vez que os idosos que participaram na oficina trabalharam na mesma empresa, têm, provavelmente, um background muito parecido. Este facto tornou os resultados muito semelhantes e evitou que se pudessem identificar outros problemas que idosos de outros contextos podem ter, mas que não se manifestam nos idosos seleccionados.
Para além disso, estes idosos foram também escolhidos por revelarem uma certa apetência para o contacto com tecnologias da informação e “por apresentarem um alto nível de motivação para o aprendizado da informática”, que tinham evidenciado em oficinas realizadas anteriormente. Aliás, este parece ter sido o único factor que esteve na base da selecção destes idosos. Pelo menos, este é o único motivo apontado pelos autores da checklist no artigo “Desenvolvimento de um checklist para a avaliação de acessibilidade da web para usuários idosos”.
Será que o interesse pela informática é uma característica que, por si só, possa identificar possíveis utilizadores da Internet? Talvez seja necessário ter em conta outros idosos que se vêem na necessidade de recorrer à Internet para obter uma determinada informação ou serviço que não está disponível noutro suporte, mesmo que estes não tenham um gosto especial pelas novas tecnologias, mas sejam “obrigados” a recorrer a estas por imperativos económicos ou relacionados com dificuldades motoras.

Apesar de tudo, a realização desta oficina serviu para identificar alguns problemas da população idosa e serviu de base para a pesquisa realizada posteriormente, relativa a critérios ergonómicos.
No entanto, quando observamos o resultado final, vemos que apenas duas questões da checklist foram criadas a partir de problemas identificados durante a oficina de idosos.
Estas questões relacionam-se com compatibilidade e correspondem às questões 8 e 9 deste subconjunto. Estas questões dizem respeito, respectivamente, à necessidade de permitir uma fácil identificação do cursor (quer através do contraste deste com os elementos da página, quer através do seu tamanho) e à necessidade de ter em atenção o tamanho de botões, caixas de selecção, barras de scroll, etc., uma vez que os idosos apresentam dificuldades de motricidade fina e têm dificuldade em seleccionar objectos pequenos.
Assim, parece que, na realidade, a realização da oficina de idosos permitiu chegar a poucas conclusões verdadeiramente novas. Se, numa checklist com 39 questões, apenas 2 partiram desta observação directa dos idosos, parece que todos os problemas que estes enfrentam quando navegam na Internet já estavam cobertos por outras checklists ou por normas de acessibilidade. Se assim for, esta checklist não traz nada de inovador a nível de acessibilidade e pouco pode fazer pelos idosos.

Tal como já foi também referido, o desenvolvimento desta checklist teve também como base as directivas W3C relativas à acessibilidade web. Estas directivas estão divididas de acordo com três graus de prioridade, sendo o primeiro extremamente necessário para tornar o site acessível e o terceiro apenas para melhorar a acessibilidade do site. Com estas normas, a W3C pretende tornar os sites mais acessíveis a todos os utilizadores, independentemente dos dispositivos que estes utilizem para aceder à Internet e independentemente de quaisquer problemas e limitações associadas à utilização da Internet (quer se relacionem com factores do foro físico ou psicológico do utilizador, quer se relacionem com o ambiente em que este se encontram no momento do acesso).
Desta maneira, as directivas de acessibilidade web W3C conseguem ultrapassar os problemas específicos de utilizadores com deficiência, adequando-se a todos os utilizadores que, por motivos diversos, têm problemas quando pretendem realizar qualquer acção na Internet.
É muito natural, então, que as directivas W3C tenham sido usadas com base para o desenvolvimento desta checklist específica para utilizadores idosos. No entanto, seria de esperar que este trabalho fosse mais além do que simplesmente compilar as directivas da W3C que se adequam mais aos problemas evidenciados pelos utilizadores idosos. Mas, de facto, parece que é isso mesmo que acontece. A maior parte das questões da checklist fazem apenas uma “reformulação” de directivas da W3C. Assim, não apresentam nenhuma norma “revolucionária”, apenas adaptam as directivas existentes ao contexto da população idosa. Mesmo quando se indica que existe uma “reformulação e extensão” de um ponto de verificação de uma directiva, a questão da checklist apresenta um significado praticamente igual ao do ponto de verificação da W3C.

Por exemplo, se tivermos em conta a questão 3, do subconjunto relativo a compatibilidade e o ponto de verificação W3C que lhe deu origem, percebemos facilmente que a checklist não acrescenta nada de novo.

Checklist: compatibilidade – questão 3
“Verifique se as páginas estão livres de intermitência (efeito de piscar) de elementos visuais no site (ex.: propagandas, bullets, ícones) e, caso exista, se o usuário pode facilmente desativar este efeito.”

W3C: 7.1
“Evitar concepções que possam provocar intermitência do ecrã, até que os agentes do utilizador possibilitem o seu controlo”

De qualquer das formas, mesmo que esta checklist não seja inovadora, apresenta a vantagem de sistematizar e de agregar várias informações, permitindo assim, de uma forma mais directa, que se possa avaliar a acessibilidade de um site em relação a utilizadores idosos.
Para além disso, as questões são apresentadas de forma muito clara, o que faz com que qualquer pessoa possa perceber rapidamente a que se referem. São apresentados exemplos que permitem a identificação imediata dos elementos em questão.
Existe também a nomeação dos elementos a que cada questão de aplica directamente, o que torna a avaliação mais rápida e pode ajudar se necessitarmos apenas de avaliar a acessibilidade relativamente a um elemento. Por exemplo, se quisermos apenas avaliar a forma como os idosos podem ter acesso a imagens num site, será muito mais fácil e eficaz recorrer a esta checklist.
Todas as questões apresentam também a indicação da necessidade de estarem incluídas na checklist, ou seja, apresentam a sua relevância. Esta indicação permite não só compreender a origem da questão, mas também identificar os problemas que a população idosa enfrenta quando está a utilizar a Internet. Estas informações são úteis também para sensibilizar os criadores de páginas e conteúdos web para os problemas dos idosos e para os levar a cumprir estas questões de modo a tornar os seus sites acessíveis a este público.
Outro dos pontos positivos desta checklist é que, mesmo nas questões, que não tiveram por base directivas W3C, é usado o mesmo critério para indicar a relevância do cumprimento de cada uma das questões. Assim, qualquer pessoa que pretenda avaliar a acessibilidade de um site, relativamente a utilizadores idosos, e que conheça as directivas W3C, pode facilmente saber que importância e que prioridade têm cada uma das questões.

A criação desta checklist serve também para alertar para a necessidade de ter em consideração questões relacionadas com acessibilidade, especificamente direccionadas para uma faixa de público que está a crescer a um ritmo bastante acelerado, uma vez que a esperança média de vida está também a aumentar e o número de crianças e de pessoas em idade activa a diminuir.
Para além disso, se os sites tiverem em consideração as questões levantadas por esta checklist estarão também a permitir o acesso a pessoas que, não sendo idosas, também têm problemas idênticos aos das pessoas mais velhas, como dificuldades visuais ou auditivas e problemas de motricidade.

4 Comments:

At 8:16 da tarde, Blogger Unknown said...

Bem, tenho a dizer que o teu artigo vai precisamente onde o meu (ainda) não vai. Pegas nas directivas e fazes uma análise crítica muito bem fundamentada, sem dúvida. A ver se consigo ainda antes de 2ª feira lançar uma segunda versão do meu...

Beijito e bom trabalho ;)

 
At 3:33 da tarde, Blogger Juliana M. said...

Olá Paula.
Como sempre um artigo bem completo. Acho que analisas bem a checklist e a sua importância ou valor no contexto da acessibilidade na WEB. Concordo com a tua análise à checklist. De facto, o estudo acaba por ser redutor tanto na sua metodologia (amostra e ferramenta interactiva escolhida) como nos próprios resultados apresentados. Mas também concordo que só pelo facto de ser a primeira checklist a dedicar-se a um grupo específico de utilizadores esta checklist já apresenta algo de novo, e se calhar leva-nos a desviar-nos da tendência de generalizarmos as questões de acessibilidade como direccionadas apenas a pessoas com alguma deficiência. Também nos alerta a pensar melhor nas questões de acessibilidade. De facto, se muitos de nós terão a sorte de chegar a uma idade avançada sem deficiências, o que é certo é que não há ninguém que chegue a uma idade avançada sem se tornar idoso…Isto é, amanhã podemos ser nós os utilizadores com necessidades especiais.

bj

 
At 3:34 da tarde, Blogger Juliana M. said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

 
At 10:17 da tarde, Blogger Andarilho said...

desculpe, como consigo acessar o seu artigo "checklist de acessibilidade para idosos"? o link para a página onde ele está disponível é http://ergonnomos.blogspot.com/2006/03/directivas-de-acessibilidade-para.html . Sou aluno da UnB e estou com um projeto de sítio para idosos e gostaria de usar o seu artigo como referência. Obrigado.

 

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